
Quando fiz meu primeiro blog lá nos idos de 2002 (?), era meio que um diário visitado por três ou quatro amigos. Eu achava o máximo essa nova forma de se relacionar com o mundo, ainda que meus “leitores” já tivessem me ouvido contar as mesmas histórias pessoalmente. Ou seja, quem me lia tinha um certo conhecimento da minha vida pessoal, e tinha inclusive visto muitas daquelas histórias acontecendo in loco. Eram leitores, amigos e testemunhas, vamos colocar dessa forma.
Mesmo conforme desconhecidos iam encontrando minha página no ig (afinal não tinha tantos outros blogs assim), havia uma troca maior em termos de “ciber relacionamento”, e grupos que se liam eram formados diariamente. Dava-se pitaco em quase tudo, e quem discordava era de maneira muito civilizada – era uma relação virtual muito pessoal, tipo conversa de bar. Não fazia a mínima idéia de que anos depois os blogs seriam visitados por milhares de pessoas num único dia, e que essa possibilidade de aproximação acabaria se perdendo. Afinal não dá pra se relacionar com tanta gente ao mesmo tempo, mesmo que se queira.
Naquela época, blog pra mim era só uma forma de me divertir no tempo livre, um meio de tirar o estresse da sala de aula, de esquecer toda a maledicência adolescente com a qual eu convivia. Porque se eu achava que ser aluna pobre e nova em escola de riquinho era ruim, descobri mais tarde que ser professora pobre e nova em escola de riquinho podia ser tão ruim quanto. Ou pior. Porque não era só ouvir desaforo, era ouvir desaforo, não poder revidar, e ainda ficar presenciando desaforo contra outras crianças sem poder fazer muita coisa pra impedir isso.
Então a internet era lazer, era conhecer gente nova, trocar experiência com outros professores, era conhecer meus namoradinhos (naquela época 85% de quem usava essas plataformas sociais era nerd, não era nada parecido com o que é hoje), enfim, desopilar o fígado das horas em sala de aula.
Eis que o mundo dá voltas, e mesmo depois de ter abandonado minha profissão me vejo obrigada a conviver numa espécie de eterno recreio de segundo grau. Porque o que antes era minha válvula de escape se tornou trabalho, e pra quem se coloca nessa posição a verdade é que as coisas ficam muito parecidas com uma sala de aula.
Tem a patricinha mostrando as coisas bonitas que o pai comprou, tem a independente que corre atrás do que quer, tem a sensível que se envolve demais em tudo, tem a empreendedora que estuda muito e a gente sabe que vai longe, tem a mandona que quer sempre pegar a liderança em todos os trabalhos, tem a super cool que se dá bem com todo mundo, tem a que se reúne em grupo pra estudar, tem a que se reúne em grupo pra falar mal das outras, tem a que não quer crescer e age como menininha, tem a abelha rainha, tem a madura que age como mãezona, tem a fofoqueira que espalha histórias só pra ver o circo pegando fogo, tem a estudiosa que se mantém fora de tudo isso, tem a machona que ameaça bater em todo mundo que não der o lanche pra ela, tem a que se faz amiga da machona pra ficar na sombra e comer de graça quando ela for cobrar o lanche, tem a que viaja o mundo todo, tem a que viaja o mundo todo com a mochila nas costas, tem a que não precisa se preocupar com as mensalidades da escola, tem a que se preocupa, tem a que acha que não devia estar ali, tem a piadista que não leva nada muito a sério, tem a que gosta de aparecer mais que todo mundo, tem a que se esconde no fundo da sala pra não aparecer, tem a perua que tá sempre maquiada, tem a fashionista, tem a que se apaixona por alguém diferente todo dia, tem a baderneira que só quer se divertir, tem a baderneira que só quer tocar o terror, tem as BFF’s que se tornam melhores amigas pra sempre, tem as BFF’s que se tornam melhores amigas pra sempre até que uma rouba o namorado da outra, tem a que ganha um dinheirinho vendendo coisas no vestiário, tem a que vive aprontando mas quando alguém vai tirar satisfações começa a chorar e se faz de vítima, tem a que não consegue socializar, tem a que não consegue guardar segredos, tem a que guarda seus segredos muito bem, tem aquela que todo mundo gosta, tem aquela da qual todo mundo se aproxima por interesse, tem a que não aprende com os próprios erros, tem a que é perseguida, tem a que persegue, tem a que toma a defesa de quem está sofrendo perseguição, tem a que toma conta da vida de todo mundo, tem a que é artista, tem a que sabe de tudo, tem a sabe-tudo, tem a que cola nas matérias, tem a preocupada com o corpo, tem a preocupada com o meio ambiente, tem a que leva os bichinhos de rua pra casa, tem a super dramática que eleva tudo à teatro, tem a mais bonita da classe, tem a que morre de inveja da mais bonita da classe e faz de tudo pra convencer os outros a não gostarem dela, tem a defensora de todas as causas, tem a que tem proteção dos professores, tem a que só quer se divertir, tem a que sabe que precisa estar ali pra progredir depois na vida, tem a que só observa tudo e não fala nada, e por aí vai.
E nessa profusão de estereótipos que muitas vezes se cruzam, é como diz a personagem da Emily Blunt no filme O clube de leitura de Jane Austen: high school is never over*. A gente sai da escola, mas a escola não sai da gente. E todo mundo acha que está sempre certo – inclusive nós mesmas!
Pior é que se já não temos muito controle sobre o estereotipo onde nos encaixam na vida offline, imaginem na online. Aqui é uma verdadeira terra de marlboro. Fica vivo quem atira primeiro, e o sobrevivente vai ser sempre mocinho – mesmo que esteja bandido na história, é o que tá abrindo a boca pra falar, certo? E mesmo na prisão todo mundo é inocente, sempre.
Pra mim, que não sou santa mas que já saí da escola há mais tempo do que muita blogueira tem de idade, e que abdiquei da minha profissão por cansaço de ver que as coisas não mudam, tem dias que podem ser bem difíceis nesse mundinho internético onde todo mundo se conhece só de nome. Chegando perto dos 40 anos, é revoltante perceber como a gente amadurece pouco. Como damos continuidade (às vezes mesmo sem perceber) àquela crueldade que é a vida na escola.
Eu mesma já me peguei em momentos destemperados, querendo mandar pessoas pra lugares que vocês nem imaginam que possam existir, interpretando mal ou dando margem pra má interpretação, me defendendo de coisas sem importância e me calando em momentos que devia falar. É muito difícil conviver em sociedade, se entender, entender os outros e se entender bem com os outros. Não importa a idade na carteira.
Mas quando a gente consegue olhar de fora um pouquinho, percebe que geralmente existe uma entrelinha por trás de cada discurso. Às vezes não é nada demais, às vezes é onde está a pegadinha. E é aí que a gente aprende que ninguém é perfeito, que todo mundo erra (inclusive a gente), e que toda história tem dois lados, que todo mundo é mocinho E bandido, não importando o que se verbalize. O adulto admite isso, a criança bate o pé até que o outro desista e diga “vai ser do seu jeito”.
Se já é difícil se entender com pai, mãe, irmã e irmão da gente, pessoas que se conhecem desde sempre e que se amam apesar de tudo e qualquer coisa, imaginem quando o problema é virtual. É entre pessoas que se conhecem superficialmente, mesmo que achem que não. Afinal, na internet cada um diz o que quiser. Quem vai se dar ao trabalho de desviar da própria vida pra provar o contrário?
Seja nas relações reais, seja nas virtuais, a verdade é que no fundo ninguém se conhece. Todo mundo é capaz de ser mocinho um dia e bandido no outro, e é muito ingênuo quem não assume ou não se dá conta disso. Mesmo quem vivencia ou testemunha está sujeito a interpretar o que viu, então não se pode ter certeza de absolutamente na-da.
Esse texto pode parecer meio torto pra quem não tiver dados que permitam ler nas entrelinhas, mas o que quero dizer realmente é que todo mundo precisa de terapia, de alongamento, de cursos de aperfeiçoamento, de aulas de auto controle, de desabafar, de voltar atrás e pedir desculpas, de assumir que errou, de se explicar, de falar o que pensa e de ouvir o que não quer. TODO MUNDO, incluindo eu e você. Não é só sempre o outro.
Leio coisas absurdas todo dia, acusações, frustrações, comparações, cobranças, como se a pessoa que escreve um blog tivesse a obrigação de deixar de ser gente e se tornar um ser perfeito, robótico, acima do bem e do mal. É um julgamento quase diário no qual não se oferece o direito de defesa – porque nem tudo chega aos ouvidos de quem tá com o nome na boca do sapo, e mesmo que chegue às vezes a gente tá cansada de tentar ir contra o que não se pode controlar.
Quem assume certezas se coloca numa posição divina que não cabe a nenhuma de nós. Vamos amadurecer e entender que blog não é a vida de ninguém. Pode ser um meio de trabalho, mas não é código decifrador de personalidade.
Pontos fracos, todo mundo tem. O que se faz com o conhecimento dos pontos fracos dos outros é o que diferencia um adulto e uma criança. Pelo menos num mundo ideal.
Imagem: cena da campanha do comercial do perfume Ange ou Démon, da Givenchy, com a atriz Uma Thurman.
*é só fazer um goggle nessa frase que vocês vão ver que sou fã da citação.