Comprei o livro Magra & Poderosa por acaso, logo que comecei a fazer a dieta. Na hora achei que fosse só mais um livro bobinho de culto à magreza, mas o selo da capa, “1° lugar na lista do New York Times”, chamou minha atenção.
Qual não foi minha surpresa quando descobri que se tratava da tradução de Skinny Bitch - outro título infeliz, mas que pelo menos diz a que veio. Sim, era um livro de culto à magreza, escrito por duas americanas (uma ex-modelo e uma ex-agente de modelos, dã), que fez muito sucesso nos EUA. Tinha lido sobre ele em alguma revista de moda (acho que a Glamour), e a postura dele já na resenha tinha me cheirado mal, como mais um endeusamento à magreza – quem não é magra quer ser, quem é magra é invejada por quem não é, etc.
Como tava barato e eu tava curiosa pra ver até que ponto elas chegavam, comprei. Ficou na estante por meses, até que semana passada peguei pra ler. A leitura é bem fácil, rápida, e as informações muito interessantes. Fiquei chateada comigo de não ter lido muito antes, porque acabou sendo um gatilho pra eu repensar muita coisa sobre alimentação.
A primeira impressão, pelo título e pela capa, é que vai ser um guia básico ensinando a passar fome pra ficar magérrima e poder zoar todas as outras que abusam dos carboidratos e dizem ser felizes assim – porque né, mentirosas, ninguém pode ser feliz se o manequim não for 36. E olha, a leitura mostra que é mais ou menos isso que as autoras pensam mesmo. Só que no meio dessa suposição irritante tem muita coisa sobre a qual todo mundo – gordos e magros – deveriam ler. Mãns… pra chegar à informação de fato, a gente tem que segurar a antipatia pela prepotência das autoras, que usam tudo que é expressão de deboche pra se referir a 1) pessoas acima do peso, e 2) pessoas que comem carne.
Pois é, elas são vegans. O problema é que são daquele tipo de vegan de discurso arrogante, que faz com que quem não é vegetariano acabe tomando birra de todo um movimento pró-alimentação orgânica e pró-meio ambiente que é absolutamente incrível. Lendo o livro, não dá pra deixar de concordar com 95% dos motivos que elas oferecem pra que o mundo se abstenha de carne, mas a forma como elas dizem dá revolta não apenas contra a indústria, mas contra elas também.
“Vaca gorda”, “estúpida”, “imbecil”, e até um “puta egoísta” – voadoras que sobram pra todas as gordas e/ou onívoras da face da Terra, como se todas as magras fossem vegans, e o fato de você continuar gorda seja resultado não apenas de uma alimentação não equilibrada, mas também de problemas de raciocínio e falta de inteligência. Porque pra elas aparentemente toda gorda só pode ser muito burra. Mas é só brincadeirinha, certo? Gordinhas, vamos levar com humor tudo isso. Ahãn.
Na verdade, pra mim ficou meio claro na leitura que cada uma das autoras escreveu uma parte do livro. Porque a diferença no discurso é impressionante: a primeira parte é um ataque sem fim a quem não é vegan, a segunda é bem mais light (acho que não li uma grosseria sequer). A não ser que tenham estruturado de uma forma que o bullying seja o processo de convencimento, e elas já partem do princípio que depois dali você é time vegan e pode ser tratada com mais respeito. E eu não consigo entender essa epidemia de falta de educação no mundo, que torna o ataque pessoal a coisa mais normal. Chamar alguém de puta egoísta porque come uma coisa que você acredita que ninguém deveria comer, isso é estrapolar um pouco, né não?
Apesar de tudo isso (que eu precisava falar porque realmente me chocou como leitora), acredito ser um livro que todo mundo precisa ler de verdade, mesmo que como uma introdução ao tema alimentação. Toda a primeira parte dele é dedicada a desmitificar coisas nas quais a gente é forçada a acreditar (o tanto de perigo que colocamos pra dentro por causa de propaganda enganosa!), a dar uma ideia do nojo completo que envolve a indústria alimentícia (não consigo mais beber leite nem comer carne depois do que li), a mostrar o mal que os grandes criadores de animais fazem ao meio ambiente, e o quanto órgãos governamentais que deveriam se responsabilizar pela saúde do público em geral são corruptíveis. Enfim, não é nada que a gente já não desconfiasse/soubesse, mas tudo é colocado de forma sucinta e de uma maneira que não dá pra simplesmente dar às costas ao que se leu.
Por exemplo, a situação dos animais criados pra abate, as condições físicas dos abatedouros, as pessoas doentias que fazem as maiores maldades com os bichos que estão para serem sacrificados, tudo isso dá náusea e uma dor de saber que tudo podia ser diferente se não fosse pela ganância dos envolvidos no processo. Gosto de carne, e não tenho nenhuma intenção de me tornar vegan, nem ao menos vegetariana (não acredito que essa seja a única forma de alimentação saudável existente, e não sei onde começa a propaganda – como elas mesmas repetem incessantemente no livro, “não confie em ninguém”), mas imaginar que aquele naco maravilhoso que está no meu prato pode ter passado por situações de desespero, tortura, falta de higiene, alimentação contaminada e injeções de sei lá o quê… Bom, o dia que eu estiver numa boa fazenda, matarem um boi sem maltratá-lo antes, e me oferecerem um churrasco, esse será o momento no qual vou colocar carne na boca de novo.
Enfim, defendo ser um livro necessário, mas apenas pra pessoas capazes de fazer uma leitura crítica. Tem que se saber filtrar o que é informação de fato, o que é tentativa de doutrinar o leitor em prol da alimentação vegan, o que é puro exagero, o que é culto à magreza. No final fica a informação sobre o que o corpo precisa, sobre o que a gente deve buscar nas etiquetas dos produtos como elementos tóxicos que não devem ser consumidos de forma alguma, a lista de boas marcas orgânicas (tem uma seleção brasileira), e mais. Então é só deixar a implicância delas com as não-vegans de lado, e insistir na leitura dos capítulos. Você não vai se arrepender!
E se você achar que eu errei ao interpretar o livro como pró-magreza, seguinte: lá no final do livro, na última página, depois de metade das 188 páginas com ataques à inteligência dos gordos, tem um parágrafo, uma metadezinha de página, lá depois do posfácio e da lista de notas de referências científicas e de livros recomendados (ou seja, aquela parte que você acha que o livro já acabou), tem um “ei, amiga, peraê”. É lá, e não no início, onde o autor dá o tom do livro, que elas dizem ah, mas a gente não tá nem aí pra magreza, a gente quer que vocês sejam saudáveis… Bullshit, né? Depois de tudo o que vocês disseram, Rory Freedman e Kim Barnouin? Depois de louvores ao jejum, confiando que todas as desesperadas pra se tornarem skinny bitches vão ler isso e correr pro médico pra saberem se a saúde está ok antes de começar a viver de água e hortaliças? Que só é pra tomar café da manhã ou almoçar quando você tiver com muita muita MUITA fome?
Pois se até eu quando li que no café a gente deve comer apenas um pedaço de fruta (e só se ainda sentir necessidade, comer o restante dela, ou outra fruta) senti que encontrei a luz! Pra quem sofre pra se alimentar pela manhã, esse é o mantra que eu precisava na vida, certo? Bom, errado. Médicos, coisa que elas não são!, dizem que a primeira alimentação do dia é a mais importante por um bom motivo. Errada estou eu, se acreditar no que estou lendo só porque quero.
Finalmente, acho que o título do livro (e a tradução pra português) não tem nada a ver com o livro em si, mas com certeza ajudou nas vendas (e isso é o que importa, né?). É chamativo, causa curiosidade mesmo que com um pouco de repulsa, e com ele criou-se uma marca – já escreveram sobre a cozinha da skinny bitch, sobre a skinny bitch grávida, um site, DVDs de exercícios…
Com certeza, agora elas têm bastante dinheiro pra poder pagar pela comida orgânica de todo dia. E pra manter esse tipo de alimentação mais saudável só com muito dinheiro mesmo. Disso sim, eu tenho inveja! rs















Meu nome é Ana Farias, sou professora de francês em Niterói, e hoje uma compradora muito mais inteligente graças ao que aprendi fazendo e lendo blogs. Meu bolso agradece!





