07/08
2012
As mulheres, os homens, o #LingerieDay
Categoria(s) #enquete, Comportamento
Ana Farias

O resultado da enquete não saiu semana passada como deveria, mas não saiu da minha cabeça não.

Bom, o #LingerieDay surgiu como uma brincadeira totalmente despretensiosa. Entre homens, claro: o empresário Fabio Rodrigues, de 30 anos, e o advogado Fernando Gravata, de 35. Novos no twitter em 2009, perceberam que todo dia era dia de alguma coisa na timeline. Nas palavras deles, “brincamos que o pessoal devia fazer coisas devidamente héteras e másculas e fazer o que todo o resto do mundo faz, ver mulher pelada“.

Pra isso lançaram o movimento no qual num determinado dia do ano as pessoas trocassem seus avatares por fotos que mostrassem suas peças de baixo. Entre os participantes não há restrições quanto a gênero ou orientação sexual, mas apesar de ser uma brincadeira o objetivo real nunca deixou de ser…

Não me levem a mal, acho isso tudo até engraçado (essa foto então foi o ápice do dia pra mim). Mas comecei o dia 25 de julho sem saber do que se tratava, logo achei que tivesse algo a ver com auto aceitação, pra alguns poucos minutos depois dar de cara com essa foto do @naosalvo. Isso mais uma breve expedição à hastag no intagram me fizeram perceber que de brincadeira inocente o #LingerieDay tem muito pouco.

Parte de vocês no entanto discordou de mim, e a maioria achou que o caráter sexual explícito da coisa não deveria ser levado muito em conta:

Vou parecer preconceituosa aqui, mas não sei, gente. Meio que acho uma brincadeira sim, mas uma brincadeira um tanto vulgar. Vou dizer por quê: uma coisa seria se todo mundo que participasse o fizesse com a intenção de fazer uma palhaçadinha subversiva (se bem que em que tipo de subversão se encaixaria a nudez ou quase em nossa cultura de versões do eu quero tchum eu quero tcha – que outro dia tocou no aniversário do meu sobrinho e fez crianças de menos de 5 anos dançarem imitando a coreografia. Durante um período de minha adolescência a música era outra, e incluía uma garrafa). Algo muito diferente foi o que se mostrou ao longo do dia: um monte de mulher fazendo pose de revista de sacanagem (algumas, tenho certeza, participaram exclusivamente pra tentar ganhar um lugar ao sol nas páginas de alguma revista masculina).

Aí eu acho que o nível baixa. Já pouco tem a ver com o orgulho das formas e a sensualidade natural que algumas poucas passaram em cliques mais espontâneos. Muita coisa que vi era digna de revista de sacanagem – inclusive os comentários masculinos, alguns bem nojentinhos, deixavam isso bem claro. E vou além: gente, eu vi foto de menina adolescente de sutiã e calcinha de algodão rodando na listagem de fotos. Isso não devia ser normal, sei lá. Acho perturbador demais pra ser levado na brincadeira apenas.

Uma das poucas que escaparam desse clichê sexista foi justamente a foto que mais provocou positivamente e negativamente o dia: a da Steph Ciciliatti, do blog A Grande Diferença.

Notem que a lingerie escolhida pela Steph é sensual, mas dia a dia. O decote é algo um pouco mais profundo do que a gente poderia ver se ela estivesse usando uma blusa mais vavavum. O foco dessa foto, pra mim, nem é o corpo cheio de suculência como diria um primo meu, mas sim o rosto dela. Notem o olhar pleno de segurança no próprio taco. Palavras de uma insegura, não existe nada mais sexy do que uma pessoa segura de sua sensualidade.

O resultado foi uma das melhores fotos que vi. Tinha outras bacanas também, com história, digamos assim. Mas a maioria era sensualização barata. Essa foto da Steph concorreu a um dos muitos concursos que chegam na cauda do #LingerieDay, e ela foi a segunda ou terceira colocada – perdeu obviamente pra uma (ou duas) das garotas Sexy/Vip/Playboy que concorreram com fotos claramente produzidas.

Foi a que provavelmente ganhou mais comentários, no entanto. Dos mais óbvios e preconceituosos (“gorda” sendo consenso entre o grupo), aos que realmente fazem alguma diferença, mostrando o quanto a participação dela foi positiva, corajosa, inspiradora. Ninguém precisa tirar uma foto de sutiã e colocar no twitter pra trabalhar esse orgulho com a própria imagem, claro, mas há que se bater palmas pra ousadia da moça.

Só porque ela não é considerada padrão de revista masculina? Sim. A gente que não tá também, seja por ser muito magra, muito gorda, muito reta, muito musculosa, enfim, muito whatever, entende o atrevimento que foi essa foto da Steph no meio de tanta beleza padronizada – que, não me entendam mal, é linda também.

O que ficou pra mim desse tal de #LingerieDay foi que é uma grande de uma faca de dois legumes.

Se por um lado dá a oportunidade de movimentar as cacholas mais quadradinhas da sociedade, também acaba sendo um veículo muito mais proveitoso pra elas – que podem jogar à vontade ofensas como “gorda otária” ou “gorda não vale”, e elogios incríveis como “assim você mata o papai” ou “banheiro, tô chegando”. Eu sinceramente não estaria aberta nem pro primeiro nem pro segundo tipo.

Mas admirei a coragem da Steph. Porque ser sensual tem muito menos a ver com peso e com formas do que com atitude. Não é à toa que tive muito namorado gordinho (um inclusive obeso) que dava de dez em termos de vuco-vuco em muuuito saradinho que namorei também.

É possível ser sensual de maneira delicada e arrebatadora ao mesmo tempo, sem perder de vista o comprometimento com o respeito por si mesma. Tão aí essas fotos do post que não deixam mentir (as últimas três são editoriais).

Essa definitivamente não é a função do #LingerieDay, que pra mim funciona basicamente pra duas coisas: 1) pras mulheres fazerem a sexy e cavarem elogios de homens com a desculpa de que é uma brincadeira, não pornografia, 2) pros homens montarem uma base de imagens pra futuras… er… pesquisas.

Porque poucos são os caras que se alegrariam com imagens sutis como essas que mostrei neste post. As que fariam isso por eles eu me recuso a repassar, porque esse aqui é um blog de respeito! hahaha

Peço desculpas se pareci preconceituosa, gente. Mas acredito que essa normalidade da qual a gente se utiliza pra lidar com nudez e sexo em nossa cultura vai além do normal e do saudável. Pelo menos é assim que vejo as coisas. E vocês?

Fotos: thewildfleur.com e Não Salvo



25 comentários
Comentários
25 comentários em "As mulheres, os homens, o #LingerieDay"
  1. 07/08/2012

    Seja por qual motivo for, sabemos muito bem com que olhos os homens viram essas fotos… E nem adianta dizer “mas gente, eu não tenho culpa, esse nem era meu objetivo”! Não tem culpa mas é responsável! Daí é por conta e risco de cada uma (e, né, muitas preferiram o “risco”). Eu até participaria da brincadeira, mas provavelmente com uma calcinha na cabeça, e não onde ela deveria estar, hahaha

    • Ana Farias
      07/08/2012

      tinha muitas assim, aí é que eu acho que entra a brincadeira! ;)

  2. 2. Marion
    07/08/2012

    Ana, eu acho que as pessoas levam à sério de mais o tal do Lingerie Day, é uma brincadeira apenas. Óbvio que tem as espetaculosas querendo mostrar os dotes para sair em revista masculinas e , claro, a homarada querendo ver carne, nem ligando para a tal lingerie.

    Mas eu me incomodo como você com as pessoas querendo parecer sexy de qualquer maneira. Todo mundo fica sensualizando ( eu ODEIO esta palavra! rs) na internet, fazendo cara de gosto( a). Isso cansa. Acho que as pessoas perderam o senso. Tem que ser sexy nas horas certas, não parecer sexy até na foto do crachá da empresa! rs

    Beijos

    • Ana Farias
      07/08/2012

      com certeza! ;)

  3. 3. Angelina
    07/08/2012

    Acho que você está absolutamente certa, Ana! E a Steph tá de parabéns por “incomodar” esse povinho babaca que acha que gostosura é derivada do petróleo, se é que vc me entende…
    Esse LingerieDay é mais uma desculpa pra mulheres escravizadas pelos padrões mostrarem a bunda e os peitos para homens babacas e machistas. Porque, né? Só o carnaval não é o suficiente!

    • Ana Farias
      07/08/2012

      “carnaval não é o suficiente”! hahahaha

  4. 4. Mari
    07/08/2012

    Eu acho q a maioria votou q achava só uma brincadeira pq não fez a pesquisa q vc fez. Digo isso por mim, pq na minha timeline só apareceram uns poucos bichinhos de pelúcia de calcinha, quase nada de pretendente a gostosa sensualizando (nem meninos com papel higiênico a postos). Mas eu acho que os meninos se interessam por sensualidade sutil também. Só que são meio condicionados desde cedo a essa sensualidade mais vulgar. Como se isso que os fizessem homens, mesmo que na prática a menina mais normal anime mais que toneladas de sexy gostosas.
    Acho que aí parte da gente não entrar nesse jogo deles, e ser bonita e sensual do jeito que é, pra nós mesmas e, se algum cara gostar mesmo sem caras e bocas, é esse que vale a pena.

    • Ana Farias
      07/08/2012

      pode ser, Mari! rs

  5. 07/08/2012

    Sempre sempre toda vida achei essa brincadeira muito sem sal e nexo, mas sempre aceitei de boa, afinal, tenho amigas que pagariam se fosse possível por um #lingerieday toda semana.
    Adorei a atitude da Steph e achei a foto dela bem digna, com certeza bem melhor que as varas-verde que devem ter aparecido.
    Adorei a matéria.
    Beijos ;*

    • Ana Farias
      07/08/2012

      hahaha

  6. 6. Marcella
    07/08/2012

    Eu não acho que é preconceito.Eu gostei da Steph.O que tá acontecendo, é que as mulheres lutaram tanto pra poder votar,trabalhar,ser independentes.. e agora parece que a única coisa que importa é ser gostosa,peituda,um naco de picanha que faz os homens salivarem…Eu tô em choque de ver as fotos de capa no Facebook: as gurias de biquini,com a bunda de fora,despretensiosamente…rsrs

    • Ana Farias
      07/08/2012

      pois é, fotos super espontâneas! rs

  7. 07/08/2012

    Acho legal a idéia, bem interessante. Mas não participaria. rs. Kiss

    • Ana Farias
      07/08/2012

      né?

  8. 8. Lucia Marina
    07/08/2012

    Oi!

    A Steph foi uma das poucas que captaram o sentido da coisa. Lingerie a gente usa todo dia, e vê se a gente fica por aí fazendo essas poses de revista/contorcionista? O problema é que nesse país tudo descamba para a sacanagem, é impressionante. E o pior é que lá fora a fama da brasileira é “aquela”, né? Ontem mesmo, lendo notícias sobre as Olimpíadas, um link puxando outro, fui cair num fórum europeu onde os caras comentavam os dotes das atletas. Cada comentário sobre as “Brazilians” de arrepiar os cabelos. Depois reclamam. Aí aparecem os turistas crentes que o país é permissivo, o negócio todo se junta à bandalheira usual, e temos aí crianças e adolescentes entrando na roda.

    Então, não obrigada, fico de fora feliz do #bundaday

    Bjos! o/

    • Ana Farias
      07/08/2012

      pois é, jogar com essa super sensualidade como se não fosse nada demais tem esse preço.

  9. 9. Bia Maia
    07/08/2012

    Gostei bastante do seu texto Ana. O que me incomoda em discussões acaloradas sobre isso é a falta de liberdade com o corpo. Tenho lido textos de umas autoras feministas muito boas, como a Lola Aronovich, e pensado muito sobre isso. Aí se a mulher vai lá e posa vulgar ela é piranha. O problema é de quem mesmo? Ahh….dela né…Feio pra mim é matar, roubar e contar fofoca pela metade. Ser piranha/periguete/biscate ou sei lá o que AINDA não é crime, e ficar de moralismo com isso é soooo last year…. Mas falei tudo isso porque acho que cada um é dono do próprio corpo, faz com ele o que quer, tendo ou não consciência.
    Se eu faria? Nunquinha! Apesar da minha veia exibicionista e attention whore (rs), tanta exposição assim me constrangeria muito. E outra, se algum retardado me chamasse de gorda eu não ia me recuperar rápido.
    Beijo!
    ah, e não pareceu preconceituosa não, relax!

    • Ana Farias
      07/08/2012

      hahaha sou chamada de gorda dia sim dia não, relax. Com o tempo entra por um ouvido e sai pelo outro. Mas vc tem razão sobre essa questão de liberdade com o corpo, e nem eu sou estudiosa do assunto, é só uma opinião pessoal mesmo. Acho que essa liberdade deixa de existir na medida em que se tornou meio que uma obrigação da brasileira ser gostosona, entende? Não sei se consigo verbalizar isso direito. Acho estranho que ao mesmo tempo que se coloque a questão do “o corpo é meu, quero mostrar” exista a ditadura da gostosura, da imposição de que imagem é tudo. Sei lá.

    • 10. Bia Maia
      07/08/2012

      entendo, concordo e não tenho uma resposta pronta pra isso!rs
      Lembro de uma entrevista que eu li ou vi em algum lugar de uma brasileira que perguntou pra uma muçulmana como ela se sentia de usar a burca, se ela não se incomodava e achava machismo. A muçulmana respondeu se ela não se incomodava com aquelas mulheres peladas sambando no carnaval pra agradar aos homens, porque ela também achava isso machismo.

    • Ana Farias
      07/08/2012

      pois é, eu acho os dois extremos extremamente (ops) machistas. Pra mim a beleza de tudo tá no caminho do meio, sabe. Nem tanto a terra, nem tanto o céu.

  10. 11. Patrícia
    07/08/2012

    Acho que vc se preocupa demais com coisas que não são importantes…o que vai mudar na nossa vida se alguém resolveu tirar a roupa seja onde for?

    • Ana Farias
      07/08/2012

      nossa, se for assim a gente não pode nem mais abrir a boca, certo?

  11. 12. Clarissa
    07/08/2012

    O Lingerie Day é uma exibição para os elogios. Foi criada sim para diversão masculina. E acho que não teria nada de mais se isso fosse assumido. “Tiro de calcinha pra ver dezenas de elogios nos comentários e outros tantos ‘shares’ sim”. Simples. Particularmente não acho bacana, acho que a mulher deve ser apossar do próprio corpo e não usá-lo como meio de construir sua auto estima, segurança e ganhar popularidade. É o mesmo que me incomoda nas playmates que dizem fazer “ensaios artísticos” quando a finalidade comercial da Playboy é o entretenimento masculino. Assuma que é isso.

    O interessante nessa discussão, Ana é ver como as mulheres (especialmente as meninas) não vêem importância nesse debate. É uma cultura do “pelo outro, para o outro” tão incutida que parece tão natural quanto respirar. Se eu fosse apostar, apostaria que mais da metade dessas meninas que “brincam” no Lingerie Day nunca nem “brincaram” consigo mesmas. Infelizmente a sexualidade feminina acaba se desenvolvendo em função do masculino.

    • Ana Farias
      07/08/2012

      nossa, vc falou tudo!

  12. gostei

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