Estar logada no twitter domingo à noite pode ser uma experiência no mínimo interessante.
Apesar de ser obrigada a ler (mesmo que sem ler exatamente) as atualizações de amigos queridos falando de BBB (assunto que já tinha me cansado lá no ano 7, imagina agora no décimo segundo), tem sempre alguma sugestão divertida de programa pra assistir – afinal foi comprovado cientificamente (só que não) que a quinta coisa que os tuiteiros mais gostam de fazer é narrar o que estão vendo (a primeira é reclamar, a segunda é mandar indiretas, a terceira é fazer memes, a quarta é lançar “ao estrelato” figuras que de outra forma permaneceriam no devido anonimato, caso da inacreditavelmente agora famosa Luiza, aquela que devia ter ficado lá no Canadá).
Ontem estava eu vendo o SAG Awards, mais um prêmio, mais um tapete vermelho, boring, quando vejo muita gente falando da entrevista que a Sarah Sheeva estava dando pra Marília Gabriela no SBT, canal que nunca vejo. Fui lá dar uma espiadinha.
Pra quem não viu, impossível relatar o nonsense, o furor, a impressão de que pra estar falando daquela forma ela só podia estar on something. Até comentei isso no twitter, e a @isydronio rebateu que na verdade isso é normal, e realmente. Muita gente que descobre religião tende, pelo menos no início, a ir com muita sede nos preceitos que ainda estão naquela fase de apresentação – e compreensão mesmo, quase nada. Tenho exemplo na família do quanto religiosidade sem relativização pode ser destrutivo.
Mas não quero focar em religião aqui. Sou religiosa da minha forma, e não pretendo discutir as bases de minha fé, nem as de quem quer que seja. Esse início só foi necessário pra apresentar meu questionamento pra quem ainda não leu sobre o que aparentemente Jesus tem ensinado de importante pra Sarah Sheeva.

Esse é inclusive um post que eu tava querendo fazer aqui no blog desde o início do ano, quando li um texto da Márcia Cabrita em sua coluna da Isto É. Mas como fiquei com medo que a discussão pendesse pro lado da religião, segurei a vontade de tocar no assunto. É algo muito delicado mesmo, sujeito à interpretações, à discussões que não gosto mais de ter.
Não discuto o direito de cada um ter a sua, porque isso é óbvio. O problema costuma vir junto com a expressão da fé, porque nem sempre as pessoas sabem conversar sobre isso com quem pensa diferente. E não importa qual religião se siga, conheço argumentadores ótimos e péssimos em praticamente todas elas.
Então vamos entender que, em nenhum momento, questiono a fé de Sarah Sheeva. Apenas o que ela prega sobre um único assunto: relacionamentos.
Apocalipse agora!, o tal texto da Márcia, coloca de forma humorística exatamente o meu estranhamento com o discurso dela. Não se trata de preconceito meu, mas de choque por perceber que em pleno 2012 tem gente que ainda fala de amor e sexo com tanto… preconceito! Quem quiser pode ler a coluna da atriz na íntegra AQUI.
Peguei as partes mais importantes pra se entender o que a Sarah Sheeva vem pregando:
“(…) Se você, caro leitor, ainda não conhece a encantadora cantora, compositora, pregadora, missionária, escritora, pastora aspirante e filha de Baby e Pepeu, vale a pena uma visita ao seu blog, onde se pode também conhecer o trabalho de sua irmã Nana Shara com seu marido, Brinco. (…)
Mas a grande estrela mesmo é Sarah, que se converteu à vida religiosa em 1997, mas, pelo que parece, diferentemente de outros pastores, não pretende sugerir a cura de câncer, Aids, nem prometer carro e casa própria mediante o pagamento do dízimo e entrega total às palavras de sua crença. Ela promete o que, a seu ver, toda garota almeja: um príncipe! Sim, minha gente, as mulheres se esforçam ao máximo para dar conta de filhos, cultura, emprego, feminilidade e um companheiro, e vem Sarah Sheeva para pregar as maravilhas do ‘beijo só no altar’. Socorro!
A história de Sarah não é para qualquer um. (…) aos 24 anos, recebeu a visita de ninguém menos que o capeta em pessoa, que deu um tapa em sua cara. Logo depois Sarah, em seu dia a dia agitado, recebeu uma outra visita bem mais ilustre: Jesus Cristo. Poderia ter aproveitado a chance para pregar a paz, a bondade, o altruísmo e o infinito amor em que Jesus acreditava, mas Sarah, antes uma ‘ex-obsessiva sexual’ – palavras dela –, decidiu apregoar em seus cultos as vantagens de um comportamento de ‘princesa’. Seguindo seus próprios conselhos, Sarah está aguardando a chegada de seu príncipe. Certamente deve estar esperando sentada, pois está na seca há dez anos. (…)
Segundo o jornal O Globo, Sarah acha que ‘o homem testa a mulher para saber se é cachorra ou princesa. Para saber se o homem é príncipe, tem que fazer o teste dos seis meses, sem beijar nem pegar na mão’. Não sei exatamente o que Sarah julga ser um comportamento de princesa, mas ela mesma declara isso: ‘Quem é casada tem um peru para chamar de seu. Quem ainda não tem reza para ter, mas não fica de olho-grande não, senão vem o tamanho errado, e você acaba não podendo aproveitar direito. Porque Deus sabe a medida exata do encaixe e, se você for princesa, seu príncipe vai ser o seu tamanho’. De onde Sarah tirou isso? Da ‘Bíblia’?
Em seu mundo as mulheres dividem-se em cachorras, princesas e… só.
Será que nunca ocorreu a Sarah que duas pessoas possam se amar simplesmente? Sem ninfomaníacos, príncipes ou princesas? Sarah, tem gente que simplesmente segue o que Cristo nos ensinou: o amor.
(…)”
A aspirante à pastora roda o Brasil com a palestra/pregação “Culto das Princesas” e os seminários chamados Santificação 1 e 2. Diz que não cobra cachê, mas aceita “doações”. Segundo ela, a grana entra com a venda de seus livros, como o Defraudação Emocional, no qual ela ensina como arrumar um casamento abençoado, e com um “príncipe” (leiam os preceitos que são verdadeiras pérolas do Enem AQUI).

E sinceramente eu acho que isso que ela está pregando, e sabe-se lá tocando o coração de quantas mulheres, é ainda mais perigoso do que a promessa de riqueza vendida por quem usa a (boa) fé de seus seguidores pra tirar dinheiro deles. Porque dinheiro a gente vai lá, trabalha e consegue juntar de novo. Mas se recuperar de uma ilusão, isso é tarefa muito mais difícil.
Olha só o mercado que Sarah Sheeva tem à sua disposição. O mundo tá transbordando de gente solitária. Ser solteira não é o problema, o se sentir só é. Tem muita mulher carente e deprimida por aí, que coloca a culpa de seu buraco emocional na falta de homem. É acreditar muito que casamento muda a vida num clique, que de repente todo o cinza vai ser cor de rosa. E o depois do casamento?
Se dependesse de minha experiência pessoal eu estaria por aí bradando que isso de príncipe encantado é balela. Na verdade é mesmo, porque ninguém é perfeito – e carregar a pencha de príncipe encantado deve ser muito cansativo, pra se dizer o mínimo. Mas não vou ficar espalhando essa alegria por aí. Porque se não acredito em alguém ideal, é simplesmente porque não creio em pessoas ideais. Mas que tem muita gente boa, que vai te respeitar e te amar eternamente enquanto dure, claro que tem.
Criar meninas pra relacionamentos idealizados? Quanta irresponsabilidade!
Não é muito melhor ensinar pras filhas como as coisas realmente são? Que elas infelizmente vão encontrar pela frente pessoas que vão partir o coração delas, mas que com auto estima e confiança em si mesmas vão superar e encarar com mais compreensão o próximo relacionamento? Que elas vão realmente encontrar homens que dividem as mulheres entre “pra casar” e “pra comer”, e que esses a gente devolve pro mar porque são oferenda? Que sexo é algo pra ser feito com camisinha e responsabilidade?
Jesus não está interessado se você é uma cachorrete (que é como ela chama as mulheres com vida sexual ativa). Se você tá na pista mas tá na sua, ajuda o próximo como pode, se não sacaneia, não rouba, não mata, não pisa nos outros pra se sentir por cima, então você tem o que se chama uma vida cristã, e isso eu tenho certeza que ele consideraria muito mais importante do que se casar virgem.
Ser princesa tem a ver com postura pessoal, com compreensão da diferença de pensamento, e do direito de ser diferente que cada um de nós temos. Aí você pergunta, “mas e a Sarah Sheeva não tem direito de ser assim?”, claro que tem. Mas pregar que mulher que não beija na boca antes do casamento é uma pessoa melhor e mais fadada à felicidade que a outra que beija, que quem não segue o que ela defende é cachorra, isso não tem nada de comportamento cristão, que é o que ela muito mal e porcamente está defendendo.
O que prepara a gente pra ser feliz depois do casamento não é viver pra esse momento aconteça, não é o casamento em si. É a nossa exposição, a nossa experiência, a nossa abertura pra conhecer a vida como ela é, com seus bons e seus maus relacionamentos. Pelo menos é assim aqui no planeta onde a Sarah Sheeva aparentemente não vive.
Até porque a melhor vitrine praquilo que a a gente acredita é a nossa vida, né gente? Cadê esse casamento nobre que ela promete pra quem compra seu livro, que pra ela não chegou ainda depois de dez anos sem sequer beijar na boca? Olha, Sarah, faz o campo dos sonhos. Beije e ele virá.
Enfim, essa é minha opinião. Qual é a de vocês?
(e como diria a Ellen Degeneris, please be nice to each other)
Ps: a @brtata mandou o link com o vídeo da entrevista no SBT, AQUI.