Há muito tempo atrás eu não tava nem aí pro material com o qual era feito a bolsa que eu usava. Só queria saber duas coisas: se era bonita aos meus olhos e se eu podia pagar por ela. Não entendia bulhufas de qualidade.
Pra ser sincera, no começo nem era eu que pagava. Tinha uma única bolsa que usava até ela implorar aposentadoria. Foram os anos das mochilas e das tiracolo hippies. Depois me formei e precisei subir o nível (e a despesa) um pouquinho, e foi aí que comecei a errar de verdade. Comprei cada bolsa xumbrega…
Mas querem saber? Bons tempos aqueles nos quais eu não me preocupava com detalhes básicos tais como material e costura. Porque os anos e as revistas de moda moldaram meu gosto, e trouxeram um grande problema: não tenho o padrão de vida necessário pra ter as bolsas que gostaria de usar, aquelas com nome e sobrenome, manufaturadas por mão de obra especializadíssima.

E tem outra coisa: sabendo disso, não tenho CORAGEM de usar meu rico dinheirinho, que demoro muito pra juntar, numa única bolsa caríssima só pra desfilar com logo de grife. Não faço mesmo, gente. O dia em que eu aparecer com uma bolsa de dois mil reais, podem ter certeza que aquele dinheiro veio sem esforço pra minha conta, e não vai fazer a menor falta.
Apesar disso, passei um bom tempo sofrendo pra comprar bolsas. Só queria as de couro, só queria as perfeitas, e essas custam caro e por elas não queria pagar. Mas o preconceito foi embora da mesma forma que surgiu. Hoje sou capaz de trazer pra casa uma bolsa vendida sob o nome de “couro ecológico”, e amá-la com todo carinho, e ainda canto pra ela. You are beautiful no matter what they say…
Mas que raios vem a ser isso de couro ecológico?
A primeira vez que ouvir falar nele, foi quando entrei numa loja que costumava ter apenas artigos de couro. Notei que os preços por lá deram uma despencada, e lógico que entrei pra ver se tinha algo que me interessava. Acabei me apaixonando por uma bolsa off white com franjas, e ela custava “apenas” 200 reais. Mas aquele material era esquisito. O que é, tia? O tal do couro ecológico.
O problema é que ninguém sabe dizer de onde ele vem. Um couro, pra ser ecológico, precisa ter garantia de ter sido processado com tratamentos menos agressivos à natureza – como utilização de substâncias pouco poluentes no curtimento, naturais ou biodegradáveis, entre mil outras coisas. Ele geralmente é feito de pele bovina, com certeza caso da minha bolsa da Zappato, mas pode ser bacanudo, feito de peixe (como a tilápia). A intenção aqui não é baratear o produto, mas desenvolver materiais de uma forma ecologicamente correta – e, pra isso ser feito, todo o processo com certeza encarece as peças. Por isso minha bolsa de couro ecológico deve ser de um couro, assim, mais ou menos ecológico.
Além disso, o que muita gente chama de couro ecológico na verdade não passa de um material sintético, nem couro é! Por exemplo, o PVC, que é um derivado de… petróleo! Então na hora da compra a gente precisa ficar bem atenta pra não comprar gato por lebre, caindo em conversa de vendedor. Comassim, Bial, vem de onde, foi feito do quê? Desconfiem.
Ontem mesmo fiquei cara a cara com um couro natureba muito do duvidoso. Tem essa lojinha aqui em Niterói que se comenta à boca pequena. Tipo informação que você só repassa pra uma amiga, que repassa pra outra, e assim sucessivamente, até que ela chegou em mim. Carol, minha amiga que tem três sombras e um gloss, apareceu um belo dia com uma bolsa bem bonitinha. Eu conheço a Carol. Ela é do tipo que se pagar mais de 80 reais numa bolsa, tá na hora de internar. Olhei, olhei. Meo, onde você comprou essa bolsa? Por quanto? E foi aí que entrei pro grupo, conheci o segredo. Uma rua do Centro de Niterói, uma escadinha, uma portinha, uma salinha menor que o meu banheiro. Lá dentro, não se sabe como, zilhares de bolsas baratésimas disputando espaço. Uma lojinha que nem lojinha é ainda, onde qualquer bolsa custa 40 reais. [foto que tuitei ontem AQUI]
Eu sou muito chata. Pra não me incomodar com o material, a apresentação precisa ser muito boa. Então pensem numa bolsa que se você passar o olho rápido não vai perceber que é de material menos nobre, quando na verdade é. Digamos, tipo um trompe l’oil (engana-olho, em tradução livre). Assim são as bolsas por lá, ou pelo menos a maioria delas (tem algumas que não enganam ninguém).
Fui ver com meus próprios olhos, pra checar se elas eram legais mesmo. Se fossem, ia comprar uma pra minha mãe. Saí com três, e vou me segurar muito pra não passar lá e comprar mais duas que fiquei muito namorando.



Elas têm mil compartimentos, e muito espaço. As duas últimas possuem dois tipos de alça. Os detalhes são muito bem feitinhos. Numa olhada rápida, não parecem bolsas baratíssimas. E olhando de perto, você nunca diria que custaram 40 reais. O material não é nobre, mas também não é vagabundo. Um achado!
Perguntei pra responsável do que elas eram feitas. “Couro ecológico”.
Ah, mas não são mesmo. Dá pra ver que o material é sintético, o toque não engana. Não entendo muito disso, e posso estar enganada, mas acho que nenhum boi virou acessório nesse caso. O que aconteceu com a paisagem onde o material é produzido, aí é que são elas (nessas horas só lembro do Agent Smith de Matrix, dizendo que o ser humano é um vírus).
As bolsas não têm nenhum tipo de etiqueta, e quando perguntei de onde vinham ouvi um reticente “de São Paulo”. Pelo que posso ver na costura, acredito que seja verdade. Elas não têm “padrão china”, é tudo bem feitinho demais. Atualizando: muita gente comentou no post que a origem delas é sim, chinesa ou coreana. Então assim, são chinesas sem o tal “padrão china” que eu coloquei (material e acabamento mais fraco que a gente encontra em qualquer camelô, como qualquer pessoa que já tenha comprado um produto de camelô com origem chinesa sabe que a maioria das coisas são. Não quis dizer que tudo que vem da China é assim, como qualquer pessoa bem intencionada ao ler o texto compreenderia). Quanto à mão de obra barata, ou pior, escrava, isso nada tem a ver com ser produto barato. Tem muita mega empresa fazendo isso também - e quando digo isso não estou justificando o fato, apenas falando o que acontece. [vou aprovar os comentários assim que parar um pouquinho aqui pra ler e responder um por um, ok?
]
Enfim, elas jamais seriam compradas por quem freqüenta a Pollignanno Al’mare. Mas são bem feitas pro que são de verdade: bolsas com custo final mínimo pras consumidoras – que são muitas! Pra encontrar o lugar, é só entrar na rua Aurelino Leal, e procurar um aglomerado de mulheres. Em São Paulo deve ter uma lojinha parecida, e com peças mais baratas ainda!
Difícil foi escolher a que seria da minha mãe. Mas dei a café, apesar dela ter ficado de olho na bege rosada também.
Bom, passei o segredo pra mais de uma amiga, né? Só espero que não me persigam na rua pra puxar meu cabelo e unhar o meu rosto. Expulsa do clube eu serei com certeza! hahaha