Vira e mexe surge um zunzunzum na indústria da moda sobre o tipo de modelos que desfilam a cada temporada. Cada vez mais jovens, cada vez mais magras, isso nem é mais novidade.
Os estilistas querem não apenas que suas roupas sejam apresentadas por elas, como também compradas por elas. O público alvo de quase todas as marcas é a “garota da PUC”, jovem e bem magrinha (e rica, diga-se de passagem). Quem veste mais de 38 não tem espaço nas lojas de uma maneira geral. Quem antes era M agora é G, e quem é G de verdade (46) é impedida de comprar porque não existe modelagem pro tamanho e pronto.
Enquanto isso, as revistas estabeleceram um novo padrão pra “ser gostosa”. Gisele Bundchen, com 1m79 e 54 quilos é o exemplo de gostosura nacional – título antes levantado por mulheres com alguma carne de verdade. Então se a Gisele é gostosona, por favor, me dêem um exemplo de mulher magra. Porque pra mim ela é uma mulher bonita que é magra, não uma mulher bonita que é gostosa como entendemos, ou entendíamos, a palavra.
As cantoras e as atrizes, que estão no olhar público e servem de certa forma como modelos de comportamento (bom, na prática há controvérsias, mas vocês entendem o que quero dizer, né?), caíram todas na mesma armadilha, e emagreceram, emagreceram, emagreceram. O dia que Adele virar uma “gostosa” aos olhos da Vogue, eu desisto.
E agora os blogs, né, gente. Ao mesmo tempo que vejo pessoas super conscientes, vejo outras que parecem participar de uma competição pelo size 0. Que a gente quase nunca está satisfeita com o próprio corpo é fato, mas é estranho quando pessoas magras não se vêem como magras. E isso é uma questão que eu acho sinceramente que deveria ser levada pro consultório do analista, pra conversa particular com amigas, não pra pauta de blog. Porque o que tá escrito fica, manda uma mensagem. E essa é perigosa.

Pra mim isso tudo é uma busca de padronização feita de maneira extremamente equivocada. A indústria de moda quer adequar as consumidoras ao seu padrão de passarela, ao invés de adequar os seus produtos às necessidades das mesmas.
Esse é o mundo recente do mercado de moda, porque gente, nem precisa ir muito longe não: há dez anos atrás eu vestia 38-40, e tenho roupas até P daquela época. Enquanto isso, a Ana do HVAOff, que veste 38 hoje, já precisou comprar vestido G, porque o M ficou apertado. O normal era encontrar roupas 38-40 P, 42-44 M, 46-48 G. Quem vestia menos que 38 era PP, quem vestia mais de 48 era GG. O “padrão” era democrático, e variava seis manequins – hoje se resume a três (34-38), ou com boa vontade a quatro (acrescentando o 40).
Daí que, voltando ao tal zunzunzum, recebi uma nota dizendo que a Condé Nast International lançou um projeto de promoção de um estilo de vida saudável envolvendo as revistas Vogue ao redor do globo.
A idéia é incentivar novos hábitos entre as leitoras da revista, apresentando matérias que divulguem questões relacionadas à saúde (inclusive informações sobre distúrbios alimentares). Pelo que entendi, a edição de junho será focada em mostrar em suas páginas apenas imagens de mulheres saudáveis e maiores de idade (será que isso significa que depois de junho tudo como antes no quartel de Abrantes?).
A iniciativa foi da edição americana, surgindo como resposta à preocupação com a saúde das modelos e ao fato delas transmitirem uma imagem ideal que em nada deveria corresponder à realidade. Afinal, muitas dessas meninas são obrigadas a manter um índice de massa corporal abaixo do que seria saudável, ou seja, mostrá-las como modelos de perfeição física é o mesmo que um incentivo à anorexia/bulimia.
Não é implicância de gordinha, gente. Existem pessoas que são naturalmente magras, mas nem todo mundo nasceu pra ser magra como uma modelo – e é por isso que nem todo mundo pode ser uma. Não falo a favor da obesidade, que também é um problema. Mas é um problema que não apaga o outro.
Além disso, mesmo nesse meio outras fizeram lindamente o trabalho com mais peso do que se vê atualmente, é só olhar a geração de modelos dos anos 80 (se algo parecer errado, culpem as roupas, não as pobres moças!). Não é desculpa aceitável dizer que elas são “cabides” e que precisam ser tão magras assim. Aliás, que coisa horrível de se dizer pra alguém, “você é só um cabide”.
Bom, mas essa da Vogue eu pago pra ver, gente. Quero folhear cada página e ver se vai haver alguma mudança de hábito por parte dos editores mesmo. A frase que abre a sequência de princípios do projeto THE HEALTH INITIATIVE é a seguinte: “É bonito ser saudável”. Mas o que será ser saudável pra Vogue, exatamente?
Minha aposta? Não acredito que a revista vá sofrer nenhuma mudança significativa. Isso tem que partir como movimento do lado de cá, do lado de quem quer consumir moda e não pode.
Mas vamos acompanhar.
Enquanto isso, alguns bons posts que já li sobre o assunto (se alguém tiver mais indicações, fique à vontade):
Hoje Vou Assim Off
www.hojevouassimoff.com.br/2012/01/13/manifesto-pela-volta-do-tamanho-g
www.hojevouassimoff.com.br/2012/01/24/o-manifesto-continua
A vida como a vida quer
www.samshiraishi.com/modelos-plus-size-versus-anorexicas
www.samshiraishi.com/a-sensualidade-gg-e-as-insuportaveis-regras-de-moda-para-quem-e-diferente
www.samshiraishi.com/sobre-pesos-e-medidas-na-padronagem-textil-brasileira
Moda Trash
www.modatrash.blogspot.com/2012/01/gg-tambem-existe.html?spref=tw
www.modatrash.blogspot.com/2012/01/reflexoes.html
Smiletic
www.smiletic.com/2010/07/26/alguem-adivinha-o-manequim
Sim Senhorita
www.srtasenhorita.com/blog/2012/01/modelos-reais-vida-real-e-ai